Eu Vou Embora Essa Noite

sexta-feira, outubro 05, 2018


Ficou nítido nos moveis os vestígios de nós dois, vivendo em minutos o que, eu juro, ninguém vai viver em anos. Cada pedaço nosso jogados em cantos, buscando obscenamente se tornarem inteiros, ainda que falte tempo, nos sobra a certeza de que isso pouco importa. Talvez porque nunca estive, de fato, sem cicatrizes e a bagunça faz parte de todo átomo que sou. Seu toque quente me desumanizando cada vez mais da fantasia de ter que ser alguém sublime, enquanto dedilhava através das fronteiras expostas, pude ver que sabia quem eu era, sou. O seu caos também me fascina, como uma criança em uma loja de doces.

O silencio invadiu meus pensamentos gritantes que brincavam de competir qual me faria quebra-lo primeiro, a ideia de deixa-lo partir em algumas horas ou, ir também. Sentei na cadeira em frente a uma mesinha, com papeis e uma garrafa d'água. Observei pelo parapeito da janela, o céu azul claro, quase transparente, se desfazendo e acolhendo o laranja vivo que vai tingindo a noite, eu poderia congelar esse momento antes que se desfizesse em horas que passam tão rápidas e logo te levariam também. E você assistindo cada detalhe com atenção antes que me envolvesse em seus braços, era a calmaria entre toda a confusão.

Você, que nunca foi embora de verdade, vem sempre com os ombros largos capaz de levar todo inferno e deixar o sossego. Você, abrigo. Eu posso jurar que está prestes a chegar com o cabelo desgrenhado, molhado da chuva e disposto a ir para a praia. Ainda sobram vazios, lacunas abertas e espaços em brancos, a ausência causa isso, mas sua permanência ameniza esses dias com a esperança de te ver de novo. E ficar por anos.

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